IMPERIALISMO, IDEOLOGIA DA DESINFORMAÇÃO E SOBERANIA DIGITAL

  • Autor
  • MARCO SCHNEIDER
  • Resumo
  • A desinformação que assola o mundo não é um conjunto aleatório de falsidades, mas uma ideologia, que amalgama irracionalismo, negacionismo científico, revisionismo histórico, racismo, misoginia, homofobia, autoritarismo e fanatismo, conjurados na defesa do capitalismo mais selvagem. Ela é modulada conforme contextos locais, impactando soberanias nacionais, cada vez mais atreladas à soberania digital. Essa vinculação ocorre porque essa ideologia da desinformação se propaga majoritariamente nas plataformas digitais e serviços de mensageria desregulados, na maioria propriedade de corporações dos EUA, país cada vez mais agressivo na defesa dos interesses de suas corporações. Assim, o controle da circulação revela-se um elemento chave de poder geopolítico.

    Retomando a tese seminal de Marx e Engels em “A Ideologia Alemã”, de que a classe proprietária dos meios de produção material também controla os meios de produção de ideias, o texto sugere que, na atualidade, dada a centralidade das plataformas digitais, o foco da crítica deve centrar-se na propriedade dos meios de circulação (sem abandonar a crítica original). Pois o oligopólio por empresas estadunidenses dessas plataformas – que não produzem conteúdo mas controlam o tráfego informacional global – tem implicações políticas profundas, além daquelas diretamente econômicas. Esse controle compromete a integridade da informação e constitui o principal obstáculo a qualquer projeto efetivo de soberania digital para países periféricos, consolidando uma nova forma de imperialismo, dependência e subordinação, no plano ideológico e geopolítico.

    Em oposição à ideologia da desinformação, a informação íntegra é definida por um compromisso triplo: epistemológico (com uma razão aberta, porém rigorosa), ético (com valores humanitários, tolerantes e socioambientais) e político (com a soberania digital, vista como necessária para uma sociedade segura e próspera).

    Para pensar a soberania digital numa perspectiva histórica, o texto dialoga com a noção de desenvolvimento desigual e combinado (de Trotsky), que demonstra como modos de produção arcaicos e avançados coexistem no capitalismo global, com conversões mediadas pelas especificidades de cada país a cada momento. Essa abordagem ajuda a pensar os limites e possibilidades do Brasil fortalecer sua soberania digital no atual contexto geopolítico, considerando a ascensão chinesa e os BRICS.

    Complementarmente, a Teoria Marxista da Dependência (TMD) é evocada para problematizar a perpetuação das relações de dependência econômica entre nações centrais e periféricas. A proposta é explorar como a TMD pode iluminar a questão da soberania digital, analisando como o domínio tecnológico e informacional dos EUA atualizam a dependência.

    Para decifrar o complexo quadro ideológico atual, busca-se em Ernst Bloch duas ferramentas conceituais: 1) sua teoria da não-contemporaneidade – que explora a coexistência de visões de mundo, medos e anseios de épocas diferentes em um dado presente – é uma chave para compreender a ideologia da desinformação e conceber formas de combate-la; 2) sua noção de excedente cultural (aquilo que, numa ideologia, escapa à função de legitimar a dominação)  ajuda a entender a ascensão da ideologia da desinformação. Segundo essa chave, a ideologia dominante torna-se quase pura mistificação de massa quando a classe que a promove está em decadência, situação expressa na ideologia da desinformação contemporânea, carente de excedente cultural.

  • Palavras-chave
  • Teoria do desenvolvimento desigual e combinado, teoria marxista da dependência, não-contemporaneidade, excedente cultural, integridade da informação
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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